Visitei o Uzbequistão durante nove dias no verão de julho de 1984. Situado na Ásia Central, o país era uma das 15 repúblicas da URSS. Alguns antigos slides que acabo de encontrar reavivaram minha memória e trouxeram à tona diversas lembranças – dos mercados multicoloridos e dos habitantes uzbeques com suas vestes tradicionais às mesquitas com minaretes e belas cúpulas típicas da arquitetura islâmica.

Na época soviética só era possível visitar o país usando os serviços estatais da Intourist, a agência oficial, ou participando de um grupo da Sputnik, uma organização para jovens. Foi assim que consegui viajar, via Paris e Moscou, a esse recanto do mundo praticamente desconhecido pelo turismo há quatro décadas.
Na ocasião, o primeiro contraste com Moscou foi a fartura de alimentos nos mercados uzbeques. Legumes, frutas e laticínios coloriam os corredores dos mercados cobertos. Os vendedores, surpresos ao verem um grupo de jovens ocidentais, faziam questão de oferecer mostras de seus produtos. Não falando nenhuma palavra de russo ou de uzbeque, meu sorriso aberto era o único agradecimento ao gesto gratuito de hospitalidade sincera.

Conto em uma crônica de viagem escrita na época que fui convidado a visitar a casa de Agzam, 31 anos, gerente de uma pequena empresa do governo. Graças a uma pessoa que arranhava inglês, Agzam nos explicou orgulhosamente que preparava a festa de circuncisão de seu filho. Iria lhe custar uma fortuna – 5 mil rublos (6.250 dólares da época) – mas ele já tinha data marcada para o evento. Após aprender que o salário mensal de Agzam era de apenas 200 rublos (250 dólares), fiquei intrigado em saber como ele pagaria a festa.
“No Uzbequistão não seguimos as regras do estado soviético. Temos soluções particulares e criamos um mercado paralelo para todos os produtos e serviços”, respondeu, sabendo que poderia falar com confiança aos estrangeiros. Pedi exemplos e ele continuou. “Um dentista vai compor um dente de ouro para que o cliente não espere na fila do hospital; minha irmã negocia suas uvas colhidas e secas em seu próprio quintal; minha prima prepara doces e salgados e vende no mercado.” Concluiu com vigor. “Não se esqueça que, nós, uzbeques, somos comerciantes natos. Aqui em Samarcanda, passava a Rota da Seda. Trocar, vender, comprar e revender está na nossa alma há milênios.”
Outro tema que atraiu minha atenção foram as “tchai-khanas”, as casas de chá. A mais pitoresca situava-se nos jardins sombreados de Lyabi Hauz na histórica Bucara. Além de amoreiras seculares – as árvores teriam sido plantadas em 1477 –, o local contava com um enorme tanque de água, o qual, em pleno verão escaldante, significava um hiato de frescor!

Todas as cidades uzbeques possuíam casas de chá, mas as de Lyabi Hauz eram icônicas. Sobre uma imensa cama de madeira coberta com tapetes era instalada uma mesinha de pernas curtas. As pessoas ficavam sentadas de pernas cruzadas, sem sapatos, sobre o estrado da cama, em volta da mesa menor, saboreando seu chá, fazendo uma refeição ou jogando xadrez ou gamão. Era o local ideal para passar as horas quentes do dia. Graças ao liberalismo soviético e contrariamente às tchai-khanas que eu havia conhecido no Afeganistão em 1974, as mulheres tinham livre acesso e frequentavam as casas-de-chás em companhia de suas famílias, amigas e até mesmo sozinhas.

E 40 anos depois, como estará o Uzbequistão?
A principal diferença é o país ser hoje independente e não estar mais sob o controle das autoridades russas. O Uzbequistão iniciou um processo gradual de liberação econômica, tentando diversificar a economia e, a partir de 2016, promoveu reformas políticas. Também diversificou sua política externa, fortalecendo relações com seus vizinhos da Ásia Central e com Estados Unidos, União Europeia e China.
A população do Uzbequistão em 1984 era de 18 milhões. Hoje, ela dobrou: são 36 milhões. Para lidar com os desafios de saúde, educação e transporte, o governo precisou investir no bem-estar social e no desenvolvimento de infraestrutura. Um exemplo foi a construção da ferrovia Afrosiab, com um trem de alta velocidade, que liga a capital Tashkent às duas principais cidades turísticas, Samarcanda e Bucara. O projeto, inaugurado em 2011, foi realizado pela empresa espanhola Talgo.
Quando eu desembarcar em Tashkent nos primeiros dias do outono (neste próximo setembro), deverei me deparar com o mesmo céu azul intenso que encontrei em julho de 1984, mas com uma temperatura mais amena. Em lugar dos 43oC que me martirizaram na ocasião – lembro-me que tive de abrir uma torneira no mercado e colocar minha cabeça embaixo d’água para evitar uma insolação –, a máxima agora não deverá ser superior aos 29oC e a mínima pode até chegar a 13oC, uma temperatura com a qual estou acostumado aqui nas montanhas de Cunha, SP. Viajar três meses depois do verão foi uma excelente decisão para evitar o calor extremo!
No dia seguinte, deverei embarcar no moderno trem Afrosiab para ir a Samarcanda. O nome do trem não tem nada a ver com o continente africano, mas sim com um dos primeiros sítios arqueológicos da cidade, inicialmente chamada de Maracanda. Em 1984, a jornada de Tashkent a Samarcanda consumiu todo um dia em uma velha caminhonete russa trafegando lentamente em uma estrada de má qualidade. Hoje, o trajeto levará apenas duas horas!
Em Samarcanda, a Praça do Registan – onde estão situadas as três madraças, escolas corânicas, as pérolas arquitetônicas do país – não deve ter tido mudanças significativas. Talvez, no máximo, uma limpeza aqui ou uma pequena restauração ali. Lembro que o local é grandioso e que visitei de dia e de noite. A mais antiga, a Madraça de Ulugh Beg, data de 1420 e teria mais de 600 anos de idade. As duas outras, as Madraças de Sher Dor e a de Tilya Kori, seguiram o mesmo desenho, mas foram construídas dois séculos depois, entre 1620 e 1660. É fascinante pensar que, enquanto o mundo ao redor se moderniza, esses monumentos permanecem como símbolos de uma época em que o conhecimento e a cultura floresciam nas encruzilhadas da Rota da Seda.

Estou também curioso para saber como estará hoje a tchai-khana de Lyabi Hauz em Bucara. Será que os estrados das camas tradicionais foram substituídos por mesas modernas? O chá local terá sido trocado por refrigerantes e cervejas enlatadas? O ambiente, antes usado apenas pelos uzbeques, terá sido tomado pelas hordas de turistas russos e asiáticos? Em algumas fotos atuais, observei luzes neon que me deixaram apreensivos…
Mais perguntas na minha pauta. Nas três cidades que visitarei, será que vou encontrar o mesmo espírito acolhedor em meio à ânsia do rápido progresso? Como o antigo e o novo estarão convivendo agora, após quatro décadas de transformações?
Com a globalização econômica atual, me pergunto também se aquela veia empreendedora dos uzbeques dos anos 1980, beirando a ilegalidade, encontrou novos caminhos. Será que os mesmos vendedores, antes limitados às esquinas dos mercados, florescem agora em um ambiente mais oficial, onde o comércio e a inovação são incentivados?
Vamos esperar até setembro para ter as respostas a essas perguntas. Talvez meu maior desafio será mesmo conciliar a nostalgia e as expectativas com uma realidade moderna, aceitando que as transformações são inevitáveis, mas desejando que a essência da alma do povo uzbeque tenha permanecido inalterada.
Nota: Se você também tiver curiosidade para saber como esse país da Ásia Central se transformou nas últimas quatro décadas, convido você a seguir as curtas crônicas que postarei no WhatsApp a partir de 22 de setembro, inscrevendo-se no link do grupo “Rota da Seda”: https://chat.whatsapp.com/JUwnimWr8fXGWqpEJ1aBkd
Para aqueles que querem descobrir pessoalmente essa região do mundo tão pouco conhecida, fica um convite: um dos motivos de minha jornada na Ásia Central será investigar as possibilidades de realizar a expedição “Rota da Seda” com um grupo de viajantes experientes em setembro do próximo ano (2025) e, assim, conhecer um pouco do Uzbequistão, Quirguistão e Cazaquistão. Mais informações em https://viajologia.com.br/.